Em qualquer discussão sobre cibersegurança, falamos sobre firewalls, endpoints e nuvem. No entanto, o ativo mais crítico e, paradoxalmente, um dos mais negligenciados é o Active Directory (AD). O AD não é apenas um sistema de login; ele é o cerne da empresa moderna. É o portão de entrada que concede ou nega acesso aos sistemas e dados mais vitais e serve como a base fundamental para qualquer estratégia de Zero Trust. Se o AD é a identidade de tudo e de todos na organização, por que ele é tratado com tanta displicência?
O primeiro problema é a onipresença. Estima-se que mais de 90% do mercado de tecnologia utilize o AD, o que o torna um alvo de altíssimo valor para atacantes. Os números comprovam: o Cyber Event Response Team (CERT) da Cohesity observou que o comprometimento do AD ocorreu em mais de 90% dos incidentes atendidos nos últimos nove meses. O objetivo dos criminosos é simples: o roubo de credenciais para escalar privilégios, obter acesso irrestrito e manter persistência no ambiente.
E aqui reside a principal implicação dessa negligência: se o AD for comprometido, o jogo acaba. Os atacantes nem precisam de muito tempo. Segundo o relatório “M-Trends 2025” da Mandiant, o tempo médio de permanência de um invasor antes da detecção é de 11 dias. É tempo mais do que suficiente para realizar mudanças maliciosas e não autorizadas. Se o AD se torna indisponível nesse processo, as operações de negócio podem parar completamente.
Apesar desse risco existencial, a proteção e a recuperação do AD são frequentemente ignoradas por uma combinação de fatores perigosos. Primeiro, a complexidade. O AD possui um esquema de diretório intrincado que pode ser sutilmente contaminado por políticas maliciosas. É extremamente difícil para as empresas monitorar ou sequer identificar essa contaminação.
Segundo, a governança. O AD muitas vezes cai em um limbo de responsabilidade. Ele geralmente não é uma prioridade da equipe de infraestrutura ou de backup, mas sim dos times de segurança e gestão de identidade, criando lacunas fatais na proteção.
Terceiro, e mais alarmante, é a falta de testes. A maioria das organizações não realiza simulações de desastres no AD. A justificativa é sempre a mesma: o processo é considerado muito complexo, longo e exigiria a construção de um ambiente isolado que ninguém tem tempo para gerenciar.
O resultado é um desastre esperando para acontecer, e as empresas sabem disso. Uma pesquisa da Enterprise Management Associates (EMA) revelou que 40% das organizações admitem não ter capacidade de recuperar o AD rapidamente após um ataque. Elas descobrem da pior maneira que o processo de recuperação é notoriamente complexo, manual e propenso a erros — a Microsoft detalha mais de 40 passos que devem ser seguidos, um processo que pode levar semanas. Pior ainda: o backup tradicional é praticamente inútil. Um restore convencional não garante que o sistema será restaurado de forma limpa, pois o backup provavelmente já conterá o malware ou as alterações maliciosas que permitiram o ataque.
O mercado precisa urgentemente de uma mudança de mentalidade, abraçando o conceito de “Resiliência de Identidade” (Identity Resilience). O Gartner já reconheceu essa lacuna ao cunhar a nova categoria, a ITDR (Identity Threat Detection and Response), que foca na proteção do sistema de identidade como um ativo único, e não como um simples endpoint.
Felizmente, a tecnologia começa a responder a esses desafios. Para combater a paralisia causada pela complexidade, novas abordagens focam na detecção proativa, usando assessments (como o Purple Knight e o Forest Druid) para mapear riscos, identificar contas de superprivilégio (Tier 0) e elevar a maturidade da segurança antes de um incidente.
Em paralelo, para o cenário pós-incidente, a automação surge como a resposta ao caos e a incerteza da recuperação manual. Parcerias como a da Cohesity e Semperis são projetadas para transformar o complexo processo de 40 passos da Microsoft, que pode levar semanas, em uma recuperação de florestas inteiras em questão de horas. Utilizando “snapshots” do AD, essa automação garante o principal: que a restauração seja feita para um estado limpo, eliminando o risco de restaurar um ambiente comprometido e frustrar o negócio, mantendo-o ainda mais tempo inoperante.
Proteger eficientemente o Active Directory não é uma opção, é a estratégia central de defesa. Ignorá-lo não é uma economia de recursos, é apenas uma questão de tempo até que o negócio pare por completo.
*Por Marcos Tadeu, Gerente Sênior de Engenharia de Vendas da Cohesity.





