A governança e a qualidade de dados deixaram de ser apenas iniciativas operacionais para se tornarem elementos estratégicos essenciais nas empresas brasileiras. Nesta entrevista, Leonardo Libardi, CEO da Akquinet Brasil, compartilha insights sobre a evolução do mercado, os fatores que pressionam empresas a investir em dados confiáveis, setores com maior maturidade e os movimentos que devem ganhar força em 2026. Uma leitura necessária para quem deseja entender como dados bem geridos impulsionam a competitividade e a inovação.
IT Section: Como o mercado brasileiro tem evoluído em relação à governança e qualidade de dados nos últimos anos?
Leonardo Libardi: O mercado brasileiro vem passando por uma evolução acelerada na agenda de governança e qualidade de dados. O que antes era tratado como iniciativas pontuais — normalmente focadas em correção de base ou padronizações isoladas — hoje está cada vez mais ligado a temas estratégicos do negócio. Esse movimento acompanha uma tendência global já apontada por estudos do Gartner, que posiciona a governança de dados como um pilar essencial para a escalabilidade digital, especialmente em ambientes complexos e regulados. Estudos de mercado sobre MDM (Master Data Management) para a América Latina reforça esse cenário ao indicar crescimento consistente da adoção destas soluções no Brasil, impulsionado por transformação digital, integração de sistemas e exigências regulatórias cada vez mais sofisticadas.
IT Section: Quais fatores estão pressionando as empresas a investir mais na confiabilidade das informações em seus sistemas?
Leonardo Libardi: Atualmente, três grandes fatores têm pressionado as empresas brasileiras a investir de forma mais estruturada na confiabilidade das informações. O primeiro é a Reforma Tributária, que exige cadastros fiscais, de produtos e de parceiros muito mais precisos, padronizados e rastreáveis para garantir apuração correta de impostos e conformidade contínua. O segundo vetor é a adoção de Inteligência Artificial: projetos de IA, analytics avançado e automação só geram valor quando operam sobre dados confiáveis, consistentes e governados — algo que o Gartner vem reforçando ao alertar que dados ruins amplificam riscos e vieses em modelos de IA. Por fim, há um aumento significativo na necessidade de compliance na rede de fornecedores, com exigências mais rígidas de qualificação, rastreabilidade, ESG e integridade de dados ao longo de toda a cadeia, o que torna a governança de dados mestres um requisito operacional e não apenas técnico.
IT Section: Ainda existe resistência das lideranças em priorizar a correção de dados cadastrais? Por quê?
Leonardo Libardi: Ainda existe alguma resistência, especialmente em organizações que historicamente enxergam dados cadastrais como um tema operacional ou de backoffice. Em muitos casos, a liderança tende a priorizar iniciativas mais visíveis, como projetos de automação, subestimando o impacto estrutural da qualidade dos dados. Além disso, os benefícios da governança de cadastros costumam ser distribuídos por várias áreas — fiscal, compras, logística, vendas e compliance — o que dificulta a percepção imediata de ROI. No entanto, esse cenário vem mudando rapidamente.
Outro fator comum é a crença de que um grande esforço inicial de padronização (saneamento de cadastros) é suficiente para resolver o problema de forma definitiva. Esse é justamente um dos principais riscos: após o saneamento, sem regras, processos e governança contínua, os cadastros tendem a voltar a apresentar inconsistências, duplicidades e desvios de padrão em pouco tempo.
IT Section: Em quais setores você vê maior maturidade e onde o desafio ainda é mais crítico?
Leonardo Libardi: Os setores que hoje apresentam maior maturidade em governança e qualidade de dados no Brasil são Serviços Financeiros, Pharma (especialmente a indústria farmacêutica) e a Indústria de Transformação. Esses segmentos convivem há mais tempo com ambientes regulatórios complexos, auditorias frequentes, integração de múltiplos sistemas e alto impacto operacional de erros cadastrais, o que acelerou investimentos em MDM e governança. Por outro lado, os desafios ainda são mais críticos em Varejo, Saúde hospitalar e Agro. No varejo, a complexidade de produtos, fornecedores e canais dificulta a padronização. Nos hospitais, a fragmentação de sistemas e a falta de modelos unificados de dados ainda são barreiras relevantes. Já no agronegócio, cadeias longas, múltiplos parceiros e grande diversidade de dados tornam a governança um desafio estrutural, apesar da crescente maturidade do setor.
IT Section: Como a expansão internacional da Akquinet ajuda a antecipar tendências desse mercado no Brasil?
Leonardo Libardi: A atuação internacional da Akquinet permite observar, com antecedência, como temas como governança de dados, MDM e IA evoluem em mercados mais maduros e regulados. Muitas das demandas que hoje começam a ganhar força no Brasil, já fazem parte da agenda de clientes europeus há mais tempo. Esse intercâmbio possibilita trazer para o mercado brasileiro modelos, práticas e arquiteturas já validadas, reduzindo riscos e acelerando a adoção local, especialmente em setores que estão entrando agora em ciclos mais intensos de regulação e transformação digital.
IT Section: O crescimento acelerado da Akquinet reflete uma demanda reprimida ou uma mudança estrutural no mercado?
Leonardo Libardi: O crescimento reflete uma combinação dos dois fatores, mas com um peso cada vez maior de mudança estrutural. Existe, sim, uma demanda reprimida: muitas empresas conviveram por anos com inconsistências cadastrais, retrabalho e riscos operacionais sem tratar a causa raiz. No entanto, o que mudou de forma definitiva é o contexto do mercado. Reforma Tributária, cadeias de fornecedores mais reguladas e a necessidade de escalar IA tornaram a governança de dados mestres um requisito básico para competitividade. Isso transforma o investimento em MDM de algo pontual em um componente permanente da estratégia das empresas.
IT Section: Que movimentos do mercado devem ganhar força em 2026 quando o assunto é gestão e qualidade de dados?
Leonardo Libardi: Em 2026, o principal movimento do mercado será a evolução das soluções de MDM para além do seu escopo tradicional. Cada vez mais, o MDM deixa de ser apenas uma plataforma de centralização, padronização e controle de cadastros para se tornar um hub inteligente de dados mestres, integrado a serviços especializados de validação, verificação e enriquecimento de informações, respeitando as especificidades regulatórias, operacionais e de negócio de cada setor. É esse movimento que vem sendo chamado de “a nova geração do MDM”.





