Se a segurança cibernética fosse apenas uma questão de “quem tem o melhor cadeado”, a F5 Networks seria invencível. Mas outubro de 2025 nos ensinou uma lição amarga e irônica. Uma empresa, cujo core business é proteger a Fortune 500 e governos globais, foi invadida — não por amadores, mas por um ataque sofisticado, supostamente de um Estado-nação.
O plot twist dessa história não está na falta de tecnologia. A F5 tinha as melhores ferramentas do mercado. O ataque foi bem-sucedido porque os invasores exploraram um ponto cego, acessando o código-fonte e dados de vulnerabilidade nas sombras da complexidade. A lição é brutal: a “segurança por acúmulo” — aquela estratégia de empilhar dezenas de agentes e dashboards — falhou. O inimigo não derrubou o muro, ele operou onde ninguém estava olhando.
O antagonista invisível
O verdadeiro vilão da segurança moderna não é o hacker de capuz em um porão escuro, mas a “Infraestrutura Fantasma”. Quando empresas decidem mapear suas superfícies reais, o choque é inevitável: descobrem que possuem de 50% a 300% mais APIs do que o departamento de TI imaginava.
Estamos falando de APIs que crescem organicamente sem owner, integrações “zumbis” com parceiros cujos contratos acabaram há anos, e segredos hardcoded em pipelines de CI/CD. Segundo o “API ThreatStats 2025”, publicado pela Wallarm, ataques direcionados a APIs explodiram mais de 1.000% no último ano, provando que essa camada esquecida é o novo campo de batalha. Não é à toa que quase 60% das empresas já relatam incidentes envolvendo essa superfície invisível, segundo o levantamento “2025 Global State of API Security”, da Traceable.
O perímetro morreu
Precisamos parar de desenhar a segurança como um castelo medieval. Hoje, sua empresa é uma praça pública: nuvem híbrida, IoT e contêineres que nascem e morrem em minutos. Não existe proteção total, o que existe é o Gerenciamento de Exposição Contínua (CTEM).
A matemática aqui é simples e apoiada por grandes consultorias: organizações que priorizam processos de CTEM têm três vezes menos chances de sofrer uma violação, segundo o artigo “How to Manage Cybersecurity Threats, Not Episodes”, da Gartner. Por quê? Porque elas pararam de tentar defender tudo e começaram a defender o que é explorável.
A paralisia da equipe interna
Se a tecnologia é complexa, o fator humano é crítico. As equipes internas de segurança estão se afogando. Estudos mostram que um SOC médio lida com quase 1.000 alertas por dia, gerando uma fadiga mental que beira o insuportável.
Mas o buraco é mais fundo. Tentar “contratar a saída” para esse problema tornou-se inviável. O relatório de 2025 do ISC2 revelou uma mudança drástica no mercado: pela primeira vez, a “lacuna de habilidades” (59%) superou a falta numérica de funcionários como a maior ameaça. O dado é cruel: 88% das empresas sofreram incidentes recentes ligados diretamente à incapacidade técnica do time interno de lidar com ameaças modernas, segundo um estudo de 2025 do ISC2. O resultado disso é a “cegueira técnica”: sem especialistas sêniores em cada nova tecnologia (IaC, Cloud, Identity), a equipe interna apenas monitora luzes piscando, mas não tem profundidade para enxergar o risco real ao negócio
A visão que falta: o Cyber Fusion Center
A saída não é “terceirizar” para se livrar do problema, mas adquirir clareza. É aqui que o conceito de Cyber Fusion Center (CFC) muda o jogo. Diferente de um MSSP tradicional que apenas repassa alertas, o CFC atua como uma extensão de inteligência.
Imagine integrar superfície de ataque, proteção de identidade (via SailPoint e CyberArk) e resposta a incidentes em um único fluxo. O CFC transforma o ruído de 1.000 alertas em 15 ações prioritárias. É uma economia de inteligência: em vez de tentar contratar 10 especialistas sêniores — o que é caro e difícil —, a empresa contrata a capacidade operacional de um time que já sabe caçar ameaças em identidades e APIs.
Conclusão: imprevisibilidade é poder
A segurança moderna não é sobre ser invulnerável, é sobre não ser pego de surpresa. O objetivo final é sair da miopia digital. Quem mapeia e prioriza a exposição torna-se um alvo móvel e difícil. No mundo digital, onde gigantes caem por cegueira e não por fraqueza, a imprevisibilidade é a única forma real de poder.
*Por Theo Brazil, CISO da Asper.




