O avanço da Inteligência Artificial (IA) entrou em uma nova e decisiva fase. Se até pouco tempo discutíamos ferramentas generativas capazes de criar textos e imagens sob demanda, o foco agora se desloca para a “IA Agêntica”. Diferente das ferramentas passivas, esses novos agentes de IA têm autonomia para executar tarefas complexas, tomar decisões em fluxos de trabalho e colaborar ativamente. Diante dessa mudança, surge uma pergunta inevitável: qual o papel das pessoas em um ecossistema onde a máquina não apenas sugere, mas age?
A resposta é contraintuitiva para alguns, mas clara para quem observa o mercado: quanto mais autônoma se torna a tecnologia, mais crítico se torna o discernimento humano. Não estamos caminhando para um cenário de substituição total, mas para a era da “força de trabalho agêntica”, onde a simbiose entre humanos e máquinas redefine o conceito de produtividade.
A transição da ferramenta para o agente
A IA tradicional funciona como uma calculadora avançada; a IA agêntica funciona como um assistente executivo. Ela entende objetivos, planeja etapas e interage com outros sistemas para concluir uma missão. No entanto, essa autonomia não opera no vácuo. Sem a curadoria humana, a IA corre o risco de otimizar processos sem o contexto ético, cultural ou estratégico que só a experiência pessoal e profissional pode oferecer.
O diferencial competitivo das empresas brasileiras nesta nova era não será apenas o acesso à tecnologia, que está se tornando uma commodity, mas a capacidade de seus colaboradores em liderar esses agentes. O trabalho humano está deixando de ser operacional para se tornar de supervisão, orquestração e, fundamentalmente, de julgamento.
Por que o humano ganha relevância?
Existem três pilares nos quais a presença humana torna-se insubstituível na força de trabalho agêntica:
- Contexto e Empatia: Agentes de IA são excelentes em processar dados, mas falham ao ler as nuances de uma negociação delicada ou ao entender a cultura organizacional. O toque humano é o que garante que a eficiência da máquina não sacrifique a experiência do cliente ou o bem-estar da equipe.
- Responsabilidade e Ética: Uma IA agêntica pode tomar decisões em milissegundos, mas quem responde pelas consequências legais e éticas dessas decisões são as pessoas. A governança humana é o freio e o contrapeso necessário para garantir que a autonomia da máquina esteja alinhada aos valores da sociedade.
- Pensamento Estratégico e Criatividade: A IA trabalha sobre padrões existentes. A capacidade de “pensar fora da caixa”, de romper paradigmas e de criar o que ainda não existe continua sendo uma exclusividade biológica. Os humanos definirão o “quê” e o “porquê”; a IA cuidará do “como”.
O desafio da requalificação
Para o Brasil, o desafio é urgente. A adoção da IA agêntica exige uma requalificação massiva que vá além do ensino técnico. Precisamos desenvolver nos profissionais competências como pensamento crítico, gestão de sistemas complexos e inteligência emocional.
A liderança das empresas precisa preparar o terreno para essa colaboração. Isso significa redesenhar cargos e processos, aceitando que a produtividade não será mais medida por horas de execução manual, mas pela qualidade das decisões tomadas em parceria com a inteligência artificial.
A força de trabalho agêntica não é uma ameaça ao emprego, mas uma evolução da capacidade humana. Ao delegar o repetitivo e o burocrático para agentes inteligentes, liberamos o capital humano para o que ele faz de melhor: resolver problemas complexos, inovar e conectar-se com outras pessoas. No fim das contas, a revolução da IA não é sobre máquinas; é sobre como nós, humanos, escolheremos usá-las para ampliar nosso próprio potencial.
*Por Ricardo Ferreira, VP & General Manager para América Latina da DXC Technology.





