Vivemos um momento em que praticamente tudo pode ser feito com inteligência artificial. Textos, análises, diagnósticos, respostas estratégicas, apresentações. A IA tornou-se onipresente nas empresas, nas consultorias e nas decisões de negócio. O problema começa quando ela passa a substituir aquilo que nunca deveria ter sido terceirizado: o pensamento do sócio.
Não é raro, hoje, ver situações quase caricatas. Em um processo de consultoria, por exemplo, solicita-se que o sócio responda a um questionário profundo sobre os problemas da empresa, suas fragilidades, riscos e desafios. A devolutiva vem impecável, bem escrita, estruturada, com jargões corretos. Fica claro, porém, que não foi o sócio quem respondeu. Foi a IA. O resultado é elegante, mas vazio. E, pior, inútil.
A inteligência artificial pode organizar informações, cruzar dados, sugerir caminhos. Mas ela não vive a empresa. Não sente o clima do time, não percebe tensões silenciosas, não carrega a história do negócio nem suas contradições. A melhor inteligência de uma empresa continua sendo a cabeça do sócio. E quando essa cabeça deixa de pensar, a IA apenas amplifica a superficialidade.
Há um risco perigoso nesse processo: o sócio começa a terceirizar não apenas tarefas, mas também o próprio raciocínio estratégico. A IA vira uma muleta intelectual. Em vez de provocar reflexão, ela anestesia. Em vez de aprofundar decisões, ela acelera respostas rasas. O resultado é uma empresa que parece sofisticada, mas opera sem consciência real de seus próprios problemas.
A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa quando usada por quem sabe o que perguntar, o que filtrar e, principalmente, o que discordar. O sócio que não tem clareza sobre o negócio não se torna mais inteligente com IA. Ele apenas terceiriza sua confusão para um algoritmo bem treinado. A tecnologia não compensa ausência de visão, nem substitui responsabilidade intelectual.
Empresas sólidas não são construídas por respostas automáticas, mas por perguntas embasadas com visão. E essas perguntas nascem da vivência, da experiência, da coragem de encarar a realidade sem filtros. A IA pode ajudar a organizar o mapa. Mas quem decide o destino ainda precisa ser alguém que conhece o terreno, entende os riscos e avalia as consequências.
No fim, a tecnologia mais valiosa dentro de uma empresa continua sendo invisível, não escalável e insubstituível: a capacidade do sócio de pensar, decidir e liderar com consciência. Em um mundo cada vez mais automatizado, talvez o verdadeiro diferencial competitivo seja justamente não terceirizar aquilo que define o futuro do negócio.
*Por Rogerio Vargas, sócio da Auddas.





