Durante muitos anos, o sucesso de um CIO ou CTO foi medido pela estabilidade da infraestrutura, pela eficiência operacional e pela capacidade de execução técnica. Esse modelo ficou para trás. Em 2026, liderar tecnologia significa liderar pessoas, decisões e crescimento do negócio.
Pesquisas recentes deixam claro esse cenário. Segundo o Gartner, mais de 70% das iniciativas estratégicas das empresas já dependem diretamente de tecnologia, e quase 50% dos CEOs esperam que o CIO seja corresponsável pelo crescimento da receita. A tecnologia passou a ser motor de valor e isso muda radicalmente o perfil exigido dos CIOs e CTOs.
O principal desafio do CIO hoje não é tecnológico, mas de orquestração. Orquestrar expectativas do board, demandas do negócio, limites regulatórios, riscos cibernéticos e, sobretudo, pessoas. A cadeira de CIO passou a exigir fluência em estratégia, comunicação e impacto financeiro, algo que não era central há dez anos. Traduzir projetos técnicos em resultados tangíveis virou competência básica, não diferencial.
O segundo grande desafio é humano e geracional. Vivemos um momento inédito em que profissionais da geração X, millennials e geração Z convivem nas mesmas equipes, com visões muito diferentes sobre trabalho, carreira e propósito. Pesquisas da Deloitte mostram que 44% da geração Z rejeitam modelos tradicionais de liderança e priorizam aprendizado contínuo, flexibilidade e impacto social. Para o CIO, isso exige abandonar o papel clássico de gestor controlador e assumir uma postura muito mais próxima de mentor, facilitador e com a finalidade de conectar talentos.
Já o terceiro desafio está no equilíbrio delicado entre velocidade e segurança, especialmente com o avanço acelerado da inteligência artificial. A mesma IA que acelera inovação também amplia riscos. Relatórios da IBM indicam que mais de 80% das empresas já enfrentaram incidentes ligados a uso inadequado de dados ou automações mal-governadas. O CIO moderno vive permanentemente nesse limite: acelerar sem perder o controle.
Como avançar nesse cenário? O primeiro passo é reposicionar a área de tecnologia como plataforma de valor, e não como centro de custo. Métricas puramente técnicas já não sustentam decisões estratégicas. É preciso conectar iniciativas a indicadores de negócio como margem, churn, time to market e experiência do cliente. Quando a tecnologia fala a linguagem do negócio, ganha espaço no centro das decisões.
No campo da liderança, o caminho passa por modelos adaptativos. Não existe mais um estilo único que funcione para todos. Estudos da McKinsey mostram que equipes lideradas de forma flexível podem alcançar até 25% mais produtividade. Criar ambientes seguros para experimentação, erro controlado e aprendizado contínuo deixou de ser discurso e virou pré-requisito para inovação sustentável.
Em relação à inteligência artificial, a maturidade está no uso intencional e governado. Não se trata de adotar IA por tendência, mas de entender exatamente onde ela gera vantagem competitiva. Organizações que estruturaram centros de excelência em IA, segundo a Accenture, têm até 40% mais retorno sobre seus investimentos digitais. Isso envolve dados bem-organizados, ética, segurança e, principalmente, capacitação das pessoas.
Nesse novo contexto, duas habilidades se tornaram centrais para CIOs e CTOs. A primeira é a inteligência relacional, especialmente para liderar times intergeracionais. Saber ouvir, adaptar discursos e extrair o melhor de perfis diversos impacta diretamente no engajamento, retenção de talentos e resiliência organizacional. A segunda é a alfabetização estratégica em IA. Não é sobre programar modelos, mas sobre entender seus impactos em custos, riscos e decisões. A PwC aponta que líderes com domínio estratégico de IA tomam decisões até 33% mais rápidas e previsíveis.
No fim das contas, o CIO ou CTO deixou de ser apenas um líder de tecnologia e passou a ser um verdadeiro arquiteto de futuros possíveis. Isso exige coragem para desaprender modelos que funcionaram no passado e construir novas pontes entre gerações, entre tecnologia e negócio, entre inovação e responsabilidade.
Quem compreender essa transformação não estará preparado apenas para 2026, mas para um ciclo contínuo de mudança que já começou.
*Por Leonardo Santos, Chief Technology Officer (CTO) da Delfia.





