A inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a fazer parte da operação do sistema financeiro. Em um ambiente com mais exigências regulatórias e pressão por eficiência, escala e segurança, a tecnologia ganhou espaço no dia a dia das instituições. A discussão agora não é mais sobre adotar ou não, mas sobre como fazer isso com responsabilidade e alinhamento às regras de governança e compliance.
Estudo da consultoria Capco mostra que o uso de IA incluindo modelos preditivos, machine learning e IA generativa, já traz ganhos concretos. Em atividades como revisão regulatória, atualização de políticas internas e monitoramento de aderência, é possível reduzir em até 80% o esforço manual e acelerar o tempo de análise e resposta.
No Brasil, Banco Central e CVM têm adotado uma postura aberta à inovação, desde que acompanhada de controle e segurança. Esse cenário favorece o uso de IA como apoio à decisão. A tecnologia permite analisar grandes volumes de dados, identificar padrões e apontar inconsistências com mais rapidez. Isso ajuda gestores a tomar decisões mais precisas e reduz erros operacionais.
Os impactos já são claros em áreas como prevenção a fraudes, monitoramento de transações e compliance. O uso de IA também avançou em leitura de documentos, análise de dados, segurança cibernética e prevenção à lavagem de dinheiro. Nessas frentes, a tecnologia deixou de ser diferencial e passou a ser necessária para operar com eficiência e escala.
No Pix, a IA tem papel importante para garantir segurança e acompanhar o crescimento do sistema. Os modelos conseguem analisar um grande volume de transações em pouco tempo e identificar comportamentos suspeitos. Diferente de regras fixas, essas soluções se adaptam a novos tipos de fraude. Na prática, permitem identificar riscos em segundos e acionar respostas rápidas, em linha com as exigências regulatórias atuais.
As soluções combinam diferentes técnicas, como machine learning supervisionado e não supervisionado, detecção de anomalias, análise comportamental e análise de redes. Esse conjunto permite identificar fraudes mais complexas e coordenadas, além de garantir rastreabilidade e auditabilidade, pontos cada vez mais exigidos pelas normas.
A IA também ganha espaço no apoio a atividades internas, como análise documental, reconciliação de pagamentos e suporte à decisão. Dados da Febraban mostram que os bancos brasileiros investem mais de R$ 40 bilhões por ano em tecnologia, com foco crescente em inteligência artificial, analytics e automação. O objetivo principal é melhorar eficiência, experiência do cliente e segurança.
No Open Finance, a tecnologia ajuda a organizar e interpretar grandes volumes de dados. Isso permite criar ofertas mais adequadas ao perfil do cliente, melhorar a concessão de crédito e ampliar o uso de soluções personalizadas. Também abre caminho para novas etapas, como portabilidade de crédito e salário.
No crédito, os ganhos aparecem na análise mais completa do perfil financeiro. A IA considera histórico de pagamento, comportamento e fluxo de caixa. Com isso, as instituições conseguem reduzir riscos e ampliar o acesso, principalmente para pequenas e médias empresas, com condições mais alinhadas à realidade de cada cliente.
Em compliance, o uso da IA vai além da geração de relatórios. A tecnologia ajuda a acompanhar a aderência às normas ao longo das operações, identificar inconsistências e reduzir falhas. Isso aumenta a confiabilidade dos processos e reforça o controle interno. O uso de IA envolve riscos como vieses, falhas de interpretação e exposição de dados. Por isso, a governança precisa estar presente desde o início, pois modelos devem ser monitorados, testados e acompanhados por pessoas.
No setor financeiro, o uso de IA precisa seguir critérios claros de segurança, transparência e responsabilidade. As instituições que tratam a tecnologia como parte da estratégia, com controles bem definidos, tendem a avançar com mais consistência.
O Brasil já tem um sistema financeiro digital avançado e um ambiente regulatório sólido. A integração da inteligência artificial a esse contexto pode elevar o nível de eficiência e segurança. O desafio está em equilibrar inovação com disciplina regulatória e boa governança, pontos que sustentam a credibilidade do setor no longo prazo.
*Por Luciano Sobral, South America Managing Partner da Capco.





