O ChatGPT não inaugurou o uso de Inteligência Artificial nas empresas brasileiras. Mas ele o popularizou: companhias dos mais variados setores e tamanhos “descobriram” o seu potencial para automatização de funções e compilação de dados, por exemplo. Além disso, essa mesma popularização fez com que novas ferramentas, mais escaláveis, surgissem desde 2022.
Os números comprovam que não se trata de um mero “hype”: um estudo da Conversion, feito em parceria com a ESPM, revela que 93% dos brasileiros conectados à internet já usam algum tipo de IA Generativa na sua rotina – 49,7% usam todos os dias, e 86,4% ao menos uma vez por semana.
Mas há um ponto a ser considerado aqui: o uso da tecnologia não está sendo acompanhado, ao menos não suficientemente, por medidas que garantam que ele seja seguro, eficaz e alinhado a boas práticas de conformidade. Quantos de nós já não vimos, por exemplo, dados sigilosos de uma empresa sendo compartilhados com a IA, sem critérios claros de proteção, ou uma confiança cega dada ao que é gerado por ela? O prejuízo é duplo: informações estratégicas são expostas, e passam estar sob o risco de um vazamento, e a própria capacidade de extrair valor sustentável da IA é comprometida.
É aqui que entra em cena um conceito cada vez mais imprescindível no contexto corporativo: governança algorítmica. Em resumo, consiste no estabelecimento de políticas, controles e métricas que assegurem que os algoritmos sejam usados de forma ética, transparente e alinhada às normas de compliance. Envolve quais critérios serão utilizados para treinar os modelos – sejam eles nativos ou terceirizados -, mas também a criação de protocolos para monitorar vieses, e auditar os resultados. O mesmo estudo da Conversion/ESPM aponta que 62% dos usuários confiam muito ou totalmente no que é gerado por uma IA, número muito próximo (65,2%) ao de buscadores mais tradicionais, como o Google.
Mais do que uma camada técnica, trata-se de um processo organizacional que conecta tecnologia, gestão e responsabilidade corporativa. Sua importância pode ser destacada por meio de seus benefícios: primeiro, reduz riscos regulatórios e jurídicos, já que a empresa passa a demonstrar conformidade com legislações de proteção de dados e normas de mercado. Segundo, aumenta a confiança de clientes e parceiros, que veem como a IA age como uma extensão da força humana, e não sua substituta – uma extensão segura e responsável, vale dizer.
Em terceiro, gera eficiência operacional, pois a validação contínua dos algoritmos evita retrabalho e falhas que poderiam comprometer processos críticos. Por fim, posiciona a empresa como líder em inovação responsável, o que é cada vez mais valorizado em mercados competitivos.
Um outro estudo, esse da TOTVS, mostra que 58% das empresas que já adotam IA ainda estão nos estágios iniciais de implementação. Ou seja, vemos como o desafio não é mais adotar Inteligência Artificial, mas sim como fazê-lo de forma madura, e com governança. Enxergá-la como um ativo estratégico, e implementar práticas sólidas de gestão algorítmica, não só protege seus dados e sua reputação, mas cria uma vantagem competitiva duradoura.
Usar, todo mundo está usando. A questão é: sua empresa está sabendo usar com responsabilidade?
*Por Roberto Toscani, Diretor de Consultoria de Segurança da Informação e Privacidade da Tripla.





