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Os conflitos invisíveis também são quânticos

Rafael Silva, Diretor Técnico da Futurex, analisa os riscos da computação quântica para a segurança digital global.

IT Section Por IT Section
25/05/2026 - 16:08
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Foto: Divulgação

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O próximo grande vazamento de dados do mundo provavelmente já aconteceu — só ainda não foi decifrado. Em um cenário global cada vez mais exposto a eventos inesperados, rupturas geopolíticas e disputas silenciosas por informação, a segurança digital entra em um novo capítulo: um em que proteger dados não é mais suficiente — é preciso protegê-los do futuro.

Crises recentes deixaram claro que o campo de disputa já não é apenas físico, econômico ou diplomático. Existe uma camada invisível, permanente e altamente estratégica em operação: o ambiente cibernético. Nele, ataques a infraestruturas críticas, espionagem digital e manipulação informacional acontecem de forma contínua — muitas vezes antes mesmo que qualquer crise se torne pública. E, nesse tabuleiro, quem controla a informação tem vantagem.

O problema é que a base dessa proteção pode estar prestes a ruir. Hoje, grande parte da segurança digital global depende de algoritmos como RSA e ECC, que sustentam desde transações bancárias até comunicações governamentais. Eles são considerados seguros porque exigiriam milhares de anos para serem quebrados com a tecnologia atual. Mas essa lógica está com os dias contados. A computação quântica promete inverter essa equação — reduzindo esse tempo para minutos.

É aqui que entra uma das estratégias mais subestimadas — e mais inquietantes — da atualidade: o “harvest now, decrypt later”. Em termos simples, significa coletar dados criptografados hoje para decifrá-los no futuro, quando a tecnologia permitir. Não é teoria. É prática. E, em um mundo orientado por dados sensíveis — financeiros, diplomáticos, industriais — isso equivale a construir um estoque de inteligência pronto para ser explorado no momento certo.

Nesse contexto, a disputa global deixa de ser apenas por território, mercados ou influência. Passa a ser também por capacidade criptográfica. Mesmo atores que não lideram o desenvolvimento da computação quântica entram no jogo ao investir em proteção, interceptação e resiliência digital. O resultado é uma corrida silenciosa, onde a defesa de dados se torna tão estratégica quanto qualquer ativo físico.

A resposta a esse cenário começa a ganhar forma na criptografia pós-quântica (PQC). Diferentemente dos modelos tradicionais, ela foi projetada para resistir a ataques de computadores quânticos, utilizando abordagens matemáticas alternativas, como algoritmos baseados em reticulados. Não se trata de evolução incremental — é uma troca de paradigma.

O movimento já começou. Instituições como o NIST avançam rapidamente na padronização desses novos algoritmos, sinalizando uma mudança inevitável. A questão não é mais se essa transição acontecerá, mas quem estará preparado quando ela se tornar mandatória. Como em toda mudança estrutural, os primeiros a se adaptar tendem a capturar vantagem — os últimos, a pagar o preço.

O ponto mais desconfortável é simples: o risco não está no futuro. Ele já está em curso. Dados estão sendo coletados agora, armazenados agora, potencialmente vulneráveis agora. Em um ambiente global marcado por imprevisibilidade, o tempo deixou de ser um aliado — e passou a ser uma variável crítica.

No fim, a pergunta que fica não é técnica, mas estratégica: as informações que sua organização precisa manter seguras pelos próximos dez anos sobreviveriam a esse novo cenário? Se a resposta não for um “sim” inequívoco, talvez o problema já tenha começado

*Por Rafael Silva, Diretor Técnico da Futurex.

Tags: Computação quânticaCriptografia pós-quânticaFuturex
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