As tentativas de golpes bancários cresceram 35% no mundo nos últimos 12 meses, segundo o relatório Global Scams 2026, divulgado em outubro pela BioCatch, empresa especializada na prevenção de fraudes por meio da análise do comportamento dos usuários. O levantamento reúne informações de mais de 370 instituições financeiras de 21 países, que atendem, juntas, mais de 760 milhões de usuários.
Apesar do aumento, o índice representa uma desaceleração em relação aos 65% registrados na edição de 2025. Segundo a BioCatch, os resultados indicam que instituições financeiras que utilizam inteligência comportamental na identificação de fraudes têm conseguido conter parte das tentativas de golpes.
O celular se consolidou como principal canal utilizado pelos criminosos. Nove em cada dez sessões de golpes registradas no período tiveram origem em dispositivos móveis, cinco pontos percentuais acima do resultado do ano anterior. Nas fraudes tradicionais não autorizadas, em que o criminoso atua sem a participação da vítima, a proporção chega a 75%.
O cenário acompanha a digitalização dos serviços bancários no Brasil. De acordo com a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, 78% das transações bancárias realizadas no país em 2025 ocorreram pelo celular, totalizando 187,5 bilhões de operações.
Golpes de personificação e fraudes com celulares roubados avançam no Brasil
Os dados regionais da BioCatch também apontam um crescimento expressivo das tentativas de golpes na América Latina. O estudo Digital Banking Fraud Trends in Latin America 2026 registrou alta de 155% nas tentativas de golpes na região em 2025, considerando informações de instituições financeiras que atendem mais de 300 milhões de clientes.
No Brasil, embora o volume total de golpes tenha apresentado crescimento moderado, duas modalidades registraram avanços significativos. Os golpes de personificação, nos quais criminosos se passam por funcionários de bancos, empresas ou órgãos públicos, aumentaram aproximadamente 140%. Já as fraudes envolvendo celulares roubados cresceram cerca de 340%, com pico no último trimestre de 2025.
O relatório global também apresenta um estudo de caso sobre a identificação de sinais de comportamento e características dos dispositivos que podem ajudar os bancos a interromper operações suspeitas antes que as vítimas sofram prejuízos financeiros.
Entre os indicadores estão a presença de uma ligação telefônica ativa durante a sessão bancária, a instalação de softwares de acesso remoto e a maneira como um novo beneficiário é cadastrado. Esses elementos podem indicar situações de manipulação, como no golpe da falsa central, em que criminosos se passam por representantes de instituições financeiras para convencer clientes a realizar transferências.
Na América Latina, as fraudes envolvendo ferramentas de acesso remoto cresceram 409% em 2025, segundo o levantamento regional da BioCatch.
“Os golpes de engenharia social não ficaram, de repente, menos frequentes ou menos sofisticados”, afirma Thomas Peacock, diretor global de inteligência contra fraudes da BioCatch. “Pelo contrário, a inteligência artificial reduziu a barreira de entrada para aspirantes a golpistas e permitiu que mais criminosos criassem golpes mais convincentes, em uma escala nunca vista. Em resposta, muitos bancos perceberam que a inteligência comportamental permite identificar sinais de manipulação e coação antes mesmo que o correntista autorize uma transação”.
Bancos brasileiros priorizam detecção de fraudes em tempo real
A preocupação com o avanço das fraudes também aparece entre os executivos do setor financeiro. Na pesquisa The Future of Digital Trust 2026, da BioCatch, 89% dos 100 líderes de fraude, risco e compliance entrevistados no Brasil relataram aumento nas tentativas de golpes durante o ano. O percentual supera a média global, de 81%.
O levantamento também identificou uma presença maior de deepfakes no mercado brasileiro. Entre os entrevistados no país, 63% afirmaram ter identificado esse tipo de conteúdo nos últimos 12 meses, contra 50% na média mundial. Além disso, 90% dos executivos brasileiros acreditam que a inteligência artificial agêntica se tornará a maior vulnerabilidade do setor.
Diante desse cenário, a detecção de fraudes em tempo real aparece como uma das principais prioridades das instituições financeiras brasileiras. Segundo o recorte nacional da pesquisa, divulgado em agosto, 70% dos bancos apontaram essa capacidade como prioridade para a aplicação de inteligência artificial, ante 60% da média global.
A análise comportamental e de intenção também ganha espaço. No Brasil, 43% dos líderes entrevistados apontaram essa tecnologia como prioridade de integração aos controles existentes, enquanto o índice global ficou em 27%.
“O grande desafio da fraude em tempo real é que, em muitos casos, não há uma identidade falsa: é o cliente verdadeiro, no próprio dispositivo, autenticado corretamente, transferindo o dinheiro. O problema é entender se aquela decisão é realmente dele ou se está sendo conduzida por um agente malicioso. É aí que a inteligência comportamental passa a ser fundamental”, afirma Diego Baldin, diretor de Global Advisory da BioCatch para a América Latina.
Golpes de emprego e investimento registram crescimento
O relatório Global Scams 2026 também destaca mudanças no comportamento das fraudes em escala mundial. Os golpes envolvendo falsas ofertas de emprego apresentaram o maior crescimento entre as modalidades analisadas, com aumento de 258% no número de vítimas registradas.
As fraudes de investimento continuam concentrando a maior parte das perdas financeiras, com valor médio de US$ 6.600 por ocorrência, cinco vezes superior à média registrada entre todos os tipos de golpes.
Já os golpes de compra permanecem como os mais frequentes, representando 33% de todas as tentativas reportadas por clientes da BioCatch no último ano. As tentativas de golpes românticos cresceram 23%, ritmo inferior ao observado em 2025.
O relatório completo da BioCatch está disponível neste link.





