A Trend Micro divulgou seu relatório global de previsões de segurança para 2026 e alerta que o próximo ano deve marcar a industrialização completa do cibercrime, impulsionada pelo uso intensivo de automação e inteligência artificial. Segundo a empresa, a IA passa a atuar como elemento central na condução, aceleração e escalabilidade das ameaças digitais.
Intitulado “The AI-fication of Cyberthreats”, o estudo indica que o crime cibernético deixa de operar em campanhas lineares e passa a adotar modelos autônomos, capazes de se adaptar em tempo real, reescrever código, explorar vulnerabilidades recém-descobertas e até negociar resgates sem intervenção humana direta.
IA redefine a dinâmica das ameaças digitais
De acordo com o relatório, a inteligência artificial não apenas amplia ataques existentes, mas reconstrói toda a cadeia do crime digital. Operações antes conduzidas manualmente passam a ser executadas em velocidade de máquina, alterando de forma profunda o equilíbrio entre atacantes e defensores.
Para Rayanne Nunes, gerente técnica na Trend Micro Brasil, esse cenário representa um ponto de inflexão para empresas, governos e usuários. “Estamos assistindo a um momento em que a inteligência artificial deixa de ser apenas um amplificador de ameaças e passa a estruturar cada etapa dos ataques. O ritmo das ofensivas digitais deixa de seguir a lógica humana e passa a operar na cadência das máquinas”, afirma.
Vibe coding amplia riscos invisíveis
O estudo também chama atenção para a expansão do chamado vibe coding, prática em que ferramentas de IA geram código a partir de comandos em linguagem natural. Segundo a Trend Micro, plataformas de desenvolvimento e hospedagem baseadas em IA, como Vercel e Lovable, registraram aumentos de 57% e 660% no volume de aplicações entre janeiro e setembro de 2025.
Apesar da agilidade proporcionada, o relatório aponta que 45% do código gerado por meio de vibe coding apresenta vulnerabilidades. Muitas dessas falhas não são facilmente detectadas pelas equipes de desenvolvimento, mas podem ser exploradas por agentes maliciosos.
Nunes alerta que a velocidade de criação não elimina a necessidade de governança. “O desenvolvimento acelerado é uma oportunidade para inovação, mas também para erro. Quando quase metade do código gerado automaticamente chega ao ambiente já com fragilidades, o risco deixa de ser hipotético e se torna estrutural”, afirma.
Nuvem expõe falhas de visibilidade e configuração
Os ambientes de nuvem e as cadeias de suprimentos de software devem concentrar parte significativa dos impactos dessa nova fase do cibercrime. A análise da Trend Micro indica que 47% das organizações não conseguem visualizar completamente seus ativos em nuvem, o que cria brechas para abusos e movimentações laterais silenciosas.
Além disso, cerca de 75% das empresas já enfrentaram incidentes graves decorrentes de configurações incorretas, muitas vezes causadas por pequenos erros administrativos que passam despercebidos. Para a Trend Micro, a combinação entre baixa visibilidade e falhas configuracionais cria condições ideais para ataques autônomos guiados por IA.
“A nuvem oferece flexibilidade, mas essa mesma flexibilidade amplia o número de pontos de falha. Em um cenário de ataques guiados por IA, qualquer lacuna não monitorada se torna uma porta aberta, então a otimização constante desses ambientes demanda maturidade operacional e mecanismos de controle contínuos”, afirma Nunes.
Ransomware avança para modelo totalmente automatizado
O relatório projeta que o ransomware entrará em uma nova etapa de sofisticação em 2026. As campanhas tendem a ser totalmente autogerenciadas por IA, desde a escolha dos alvos até a negociação de resgates, realizada por bots capazes de adaptar discurso e estratégia conforme o perfil da vítima.
Segundo Nunes, o ransomware deixa de ser uma operação artesanal e passa a funcionar de forma industrializada. “As quadrilhas estão delegando decisões à IA, e isso reduz o tempo entre o reconhecimento e o ataque. A nova fronteira do ransomware não é puramente técnica, mas também comportamental, pois trata-se de modelos que aprendem como pressionar alvos de forma mais eficiente”, diz.
Resiliência proativa ganha prioridade
Diante desse cenário, a Trend Micro defende uma mudança urgente das estratégias reativas para modelos de resiliência proativa. O relatório destaca a importância de incorporar segurança desde a concepção dos sistemas, manter supervisão humana sobre automações críticas e adotar práticas contínuas de governança e monitoramento.
Para Nunes, a adoção acelerada da IA exige equilíbrio entre inovação e proteção. “A velocidade de adoção da IA é inevitável, mas a maturidade em segurança é uma escolha. Aquelas organizações que souberem combinar inovação com disciplina serão as que conseguirão prosperar em um mundo cada vez mais autônomo”, afirma.
O estudo também ressalta que o uso responsável de inteligência artificial pelas próprias organizações será decisivo para enfrentar o novo patamar das ameaças. Segundo a Trend Micro, soluções de segurança baseadas em IA, quando auditáveis e bem governadas, podem ajudar a antecipar ataques e reduzir a assimetria entre ofensores e defensores.
“A mesma IA que pode potencializar crimes digitais é, quando usada com responsabilidade e embasada por estruturas sólidas de segurança, a chave para que as empresas aumentem sua capacidade de resposta e consigam acompanhar o ritmo das ameaças”, conclui Nunes.
O relatório completo “The AI-fication of Cyberthreats – Trend Micro Security Predictions for 2026” está disponível no site da Trend Micro.





