O mercado brasileiro vive um momento de aceleração digital. Seja na automatização industrial, na expansão de meios de pagamentos ou no monitoramento logístico, a Internet das Coisas (IoT) já deixou de ser uma promessa futurista para se tornar um aspecto central das organizações que possuem operações eficientes.
Por outro lado, à medida que as empresas tentam escalar seus projetos conectados, deparam-se com novos desafios. Para se ter ideia, a pesquisa “Panorama IoT no Brasil 2026”, da Associação Brasileira de Internet das Coisas (Abinc), revela que quase 25% das organizações apontam a falta de infraestrutura de conectividade como um entrave, enquanto 37,5% citam problemas na estrutura e operação das ferramentas.
Muitas vezes diagnosticadas apenas como falhas de hardware ou de sinal, essas dificuldades mostram que as companhias encontram limitações na forma como contratam e gerenciam a conectividade. Ou seja, tratar a comunicação entre dispositivos como um mero custo de telecomunicações é o primeiro passo para o fracasso de um projeto de larga escala.
Líderes de tecnologia e negócios precisam compreender uma transição fundamental que está ocorrendo nos bastidores do setor: a evolução do modelo de Telco tradicional para o de TechCo.
Diferença entre infraestrutura e inteligência programável
Para compreender esse salto, é necessário desmistificar esses dois modelos. A Telco, ou empresa de telecomunicações tradicional, é aquela focada na infraestrutura física e na provisão de rede. Seu modelo de negócio é baseado na venda de conectividade crua (o tráfego de voz e dados) ancorado na posse de ativos pesados como torres, antenas e cabos.
Embora essa infraestrutura seja importante, o modelo de atendimento e operação de uma Telco é rígido. Ele é frequentemente amarrado a contratos inflexíveis e processos manuais que não acompanham a dinâmica de um mundo conectado por software.
Por outro lado, a TechCo, ou empresa de tecnologia, opera sobre as redes existentes, mas seu coração é o software, a agilidade e a automação por meio de APIs. Ela não se define pela posse de antenas, mas pela capacidade de tornar essa rede programável e inteligente, atuando como uma camada de tradução que simplifica a complexidade técnica.
O valor estratégico da conectividade invisível
Insistir no modelo tradicional para projetos de IoT em larga escala gera gargalos operacionais severos no cenário brasileiro. Quando uma empresa precisa gerenciar milhares de terminais espalhados pelo país, qualquer falha de rede sem gestão automatizada se traduz em perda financeira direta. O resultado são sistemas isolados e uma total falta de controle em tempo real sobre a segurança e a estabilidade da rede.
A transição para um modelo baseado em software permite que as organizações assumam o controle estratégico de suas operações, transformando a conectividade em algo invisível e programável. Ao sair da relação puramente transacional, focada apenas no custo por megabyte, a empresa passa a atuar como um parceiro estratégico que viabiliza o resultado final do negócio.
Ao invés de lidar com as burocracias de múltiplos contratos de rede, os gestores passam a operar em um ecossistema unificado, onde as decisões de conectividade são automatizadas e dinâmicas. Isso garante a resiliência operacional necessária para lidar com as variações de sinal, assegurando que o foco da empresa esteja na inteligência gerada pelos dados.
É uma mudança de paradigma que não é apenas técnica, mas sim uma decisão de negócio que dita a competitividade no mercado moderno. Não à toa, a estimativa da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais do Brasil (Brasscom) é que, entre 2024 e 2027, a IoT deve atrair R$ 4,7 bilhões em investimentos.
Hoje, a verdadeira questão estratégica é como a conectividade está sendo integrada à arquitetura de software da empresa para gerar valor e inovação contínua. Líderes empresariais que querem ser competitivos nesta nova era não deveriam mais se perguntar sobre planos de dados e custos por megabyte, e sim como gerenciar redes inteligentes de alta performance.
*Por Carlos Campos, Vice-presidente de Vendas LATAM e Diretor Geral da emnify no Brasil.





