Os falsos positivos são um inimigo silencioso da cibersegurança moderna. À primeira vista, parecem apenas um efeito colateral inevitável das ferramentas de monitoramento, mas representam um custo invisível dentro das operações: consomem tempo, sobrecarregam analistas e reduzem a capacidade de resposta a incidentes reais.
Dados coletados pelo time de SOC da ISH Tecnologia revelam mais de 41 mil falsos positivos registrados entre janeiro e outubro deste ano. Se convertidos em tempo, isso representa mais de 35 mil horas de trabalho dedicadas à investigação de alertas sem risco real – um esforço que, em termos operacionais, equivale a cerca de R$ 7 milhões em recursos humanos e tecnológicos.
O levantamento também mostra que o setor financeiro concentra a maior parte desses alertas, com aproximadamente 16 mil ocorrências no período, reflexo do nível de monitoramento exigido por um ambiente altamente transacional e regulado.
Esses números mostram a dimensão do problema: cada alerta irrelevante consome tempo, atrasa decisões e reduz a disponibilidade das equipes para lidar com incidentes de impacto real.
Os falsos positivos podem surgir em qualquer camada da defesa. Um tráfego legítimo de atualização de software pode ser confundido com comunicação maliciosa. Scripts internos de automação podem ser lidos como comportamentos suspeitos. Até mesmo usuários acessando sistemas fora do expediente ou movimentações intensas de dados em servidores internos geram alertas indevidos.
Quando somados, criam um ruído constante que compromete a precisão e a eficácia de detecções que representam ameaças reais.
Nos Centros de Operações de Segurança (SOCs), esse ruído leva à chamada fadiga de alertas: equipes exaustas, pressionadas por volume e prazos, que acabam ignorando notificações ou criando filtros manuais. O resultado é perigoso – incidentes reais podem passar despercebidos.
A resposta para esse desafio está na combinação entre tecnologia, inteligência e contexto. Soluções que integram automação, machine learning e análise comportamental permitem correlacionar dados de múltiplas camadas e reduzir drasticamente o número de falsos positivos. Com isso, os analistas conseguem concentrar esforços em eventos críticos, transformando o SOC em um núcleo de decisão, e não apenas de monitoramento.
Mas a evolução não é apenas técnica. A maturidade cibernética também depende da colaboração contínua entre empresas e seus provedores de cibersegurança. Quando o cliente participa ativamente do processo – compartilhando contexto operacional, feedback sobre falsos positivos e informações sobre novas atividades ou mudanças no ambiente –, o provedor consegue ajustar regras de detecção e correlação de forma muito mais precisa.
Essa troca constante de conhecimento transforma o monitoramento em um ciclo de aprendizado mútuo, onde cada ajuste contribui para reduzir ruídos, fortalecer a detecção e aprimorar a resposta a incidentes.
Reduzir falsos positivos é, portanto, mais do que eliminar alertas indevidos. É amadurecer processos, fortalecer a integração entre tecnologia e pessoas, evoluindo para uma segurança verdadeiramente estratégica.
No fim das contas, não se trata de detectar tudo – mas de detectar o que realmente importa.
*Por José Paulo da Paschoa Filho, Chief Security Officer (CSO) da ISH Tecnologia.





