A Copa do Mundo deve impulsionar o mercado de apostas esportivas no Brasil e aumentar significativamente o volume de pagamentos realizados por PIX. O crescimento é esperado em setores como plataformas de apostas, delivery, bares, restaurantes e serviços digitais, acompanhando o aumento do consumo durante o evento.
O cenário, porém, também acende um alerta para instituições financeiras e empresas diante da possibilidade de aumento nos casos de golpes financeiros e fraudes digitais.
Segundo dados do Banco Central, o PIX respondeu por 54,7% de todas as transações realizadas no país no segundo semestre de 2025, consolidando-se como o principal meio de pagamento utilizado pelos brasileiros.
Mercado de bets movimenta bilhões por mês
O avanço dos pagamentos instantâneos tem impulsionado o mercado de apostas online, que já ocupa uma parcela relevante do fluxo financeiro nacional.
De acordo com levantamento da consultoria GMattos, cerca de 15,3% de todo o volume de pagamentos realizados por pessoas para empresas via PIX no primeiro semestre de 2025 foi destinado a plataformas de apostas online. Já o Banco Central estima que os brasileiros movimentem entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês em bets.
Com o crescimento do setor, investigações relacionadas a fraudes, lavagem de dinheiro e desvios financeiros ganharam visibilidade. Em 2025, a chamada CPI das Bets colocou o segmento no centro das discussões ao investigar desde os impactos do vício em apostas até a atuação de influenciadores na divulgação dessas plataformas.
Casos recentes de funcionários que desviaram recursos de instituições financeiras, empresas e familiares para realizar apostas também ampliaram as preocupações sobre os riscos associados ao setor.
Eventos esportivos ampliam oportunidades para criminosos
Para especialistas em prevenção a fraudes, grandes eventos esportivos costumam criar um ambiente favorável para ações criminosas devido ao aumento repentino do volume de transações.
“É neste tipo de evento que costumamos ver um aumento expressivo de movimentações financeiras em um curto espaço de tempo, criando oportunidades para ações criminosas”, afirma Rafaela Helbing, CEO da Data Rudder, empresa especializada em inteligência antifraude transacional.
Entre os golpes mais comuns em períodos de alta movimentação estão comprovantes falsos de PIX, uso de contas laranjas, ataques de engenharia social, cadastros automatizados em plataformas digitais e movimentações suspeitas ligadas a bônus promocionais em aplicativos de apostas.
Bares, restaurantes e delivery também entram no radar
Além das plataformas de apostas, segmentos como bares, restaurantes e aplicativos de delivery devem registrar aumento expressivo nas transações durante partidas decisivas.
Segundo Rafaela, esse crescimento eleva os desafios relacionados à validação de pagamentos e à prevenção de perdas financeiras.
“O comportamento do consumidor muda completamente, com picos simultâneos de apostas, pedidos em aplicativos, compras de última hora e transferências instantâneas. Esse cenário aumenta a superfície de risco para fraudes e exige monitoramento muito mais rigoroso das operações”, destaca a especialista.
Como empresas podem reforçar a segurança
A recomendação da Data Rudder é que empresas e instituições financeiras fortaleçam seus protocolos de segurança antes do início da competição.
Entre as medidas indicadas estão monitoramento em tempo real das transações, análise comportamental para identificar atividades fora do padrão, validação reforçada de identidade e conferência sistêmica de pagamentos realizados por PIX.
“Em períodos de pico, como previsto para a Copa do Mundo, muitas fraudes e golpes acontecem porque as instituições deixam de se preparar, de forma antecipada, ao aumento significativo do volume transacional para contas já existentes e para a abertura de novas contas de pagamento.
“Comportamentos transacionais anteriores ao período podem representar normalidade (até não serem mais) e acabam se tornando o foco de atuação dos criminosos, pois eles sabem que as operações podem não se adaptar ou se precaver de maneira assertiva. O criminoso se aproveita justamente da urgência e do aumento do fluxo operacional, causado pela comoção nacional”, explica.
Inteligência artificial ganha espaço na prevenção a fraudes
Outro ponto de atenção envolve campanhas promocionais ligadas à Copa do Mundo. Segundo a executiva, programas de bônus, cashback e incentivos oferecidos por plataformas digitais podem ser explorados por fraudadores por meio da criação de múltiplos cadastros automatizados e do uso de identidades falsas.
Diante desse cenário, soluções baseadas em inteligência artificial e análise comportamental vêm ganhando relevância. Atualmente, plataformas antifraude são capazes de analisar variáveis transacionais em tempo real para identificar padrões suspeitos antes mesmo da conclusão dos pagamentos.
“A fraude acompanha o comportamento do consumidor. Quando há crescimento acelerado de transações, os criminosos também se movimentam mais rápido. Por isso, a segurança deixou de ser apenas uma camada técnica e passou a fazer parte da estratégia operacional das empresas”, conclui Rafaela.





