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A nova fase do Open Finance expõe limites da infraestrutura das empresas

Carlos Sangiorgio, Vice-presidente Executivo de Tecnologia e Operações da Evertec Brasil, analisa os desafios dos sistemas legados no Open Finance.

IT Section Por IT Section
16/06/2026 - 15:17
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Foto: Divulgação

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O Open Finance brasileiro completou cinco anos em fevereiro de 2026, com números que o colocam como o maior ecossistema de finanças abertas do mundo: mais de 100 milhões de contas conectadas e 154 milhões de consentimentos ativo, segundo dados consolidados do próprio sistema. Em 2025, os volumes semanais de comunicação ultrapassaram 102 bilhões, o que equivale a 143% de crescimento em relação ao ano anterior.

Contudo, por trás dessa vitrine de escala, existem gargalos estruturais que desafiam a sustentabilidade do ecossistema. O mais subestimado deles, e possivelmente o mais determinante para o futuro do Open Finance, é o embate silencioso entre a inovação regulatória e a realidade dos sistemas legados que sustentam o sistema financeiro nacional.

Gargalos que os números não mostram

A taxa de conversão da jornada de consentimento é, talvez, o indicador mais revelador das fragilidades do ecossistema. Segundo dados da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), menos de 50% dos usuários que iniciam um compartilhamento de dados conseguem concluí-lo. Na iniciação de pagamentos, o cenário é ainda mais crítico: menos de 30% das tentativas terminam com sucesso.

Esses números não refletem falhas de segurança, pelo contrário, os casos de fraude no Open Finance são ínfimos. O problema está na fricção da jornada do usuário. O fluxo típico exige que o cliente saia do canal onde está (um aplicativo, o WhatsApp, um site de e-commerce), seja redirecionado ao app do banco, realize autenticação, confirme o consentimento e retorne ao canal original, muitas vezes sem contexto. Cada etapa desse percurso é um ponto de abandono.

Soma-se a isso um dado alarmante: mais de 80% dos pagamentos que conseguem passar pela jornada de consentimento são, ao final, rejeitados por saldo insuficiente, evidenciando que a arquitetura não integra informações básicas (como consulta de saldo) no momento certo da jornada.

Um ecossistema pensado para a pessoa física, não jurídica

Se a experiência da pessoa física ainda apresenta atritos significativos, a adesão de pessoas jurídicas permanece como um desafio de outra magnitude. Em abril de 2025, segundo o Banco Central, apenas 589 mil empresas estavam conectadas ao ecossistema, um crescimento de 146% em 12 meses, mas ainda uma fração mínima do universo de CNPJs ativos no país. Menos de 10% dos consentimentos hoje vêm de empresas.

A realidade operacional de uma PJ é incomparavelmente mais complexa do que a de um indivíduo. Há empresas com centenas de contas bancárias distribuídas entre filiais e necessidades rígidas de conciliação contábil. Os pagamentos recebidos via Open Finance precisam ser identificados nos extratos com o mesmo padrão do internet banking para que possam ser lançados automaticamente na contabilidade. Questões como qual dia registrar transações de fim de semana, ou quem na empresa deve conceder o consentimento — um funcionário ou um sócio — ainda estão em discussão.

As instituições financeiras, por questões de segurança e antifraude, também travam transações Pix quando detectam alto volume por segundo, situação rotineira para médias e grandes empresas. A ausência de processamento em lotes agrava esse cenário.

O paradoxo central: inovação regulatória sobre infraestrutura legada

Os gargalos descritos acima — timeouts, erros de API, baixas taxas de conversão — não são apenas problemas de design de experiência. Eles são, em grande medida, sintomas de um conflito estrutural mais profundo: o Open Finance é uma arquitetura de ponta construída sobre sistemas de retaguarda que, em muitos casos, têm décadas de idade.

O Brasil é reconhecido internacionalmente por ter um sistema financeiro altamente digitalizado, com inovações como o Pix e o próprio Open Finance. No entanto, grande parte das instituições financeiras ainda depende de sistemas legados que sustentam operações críticas há 20, 30 ou até 40 anos. Essa coexistência entre uma fachada digital moderna e um núcleo de processamento antiquado é um dos maiores desafios estratégicos de tecnologia do setor.

A realidade é que as arquiteturas atuais não foram projetadas para o Open Finance.

Os core bancários tradicionais foram concebidos em uma era de processamento batch, com janelas noturnas de conciliação e volumes previsíveis de transações. O Open Finance impõe uma lógica radicalmente diferente: chamadas de API em tempo real, autenticação via padrões como OAuth 2.0 e FAPI, certificados digitais, tokens com renovação automática e exigências de latência medidas em milissegundos. Com mais de 11 bilhões de chamadas de API por mês já registradas, e volumes crescendo exponencialmente, muitos sistemas simplesmente não conseguem responder dentro dos SLAs exigidos pelo Banco Central.

As arquiteturas monolíticas, típicas de bancos tradicionais, tornam qualquer ajuste lento e caro. A posição central que os sistemas legados ocupam na arquitetura de TI faz com que mudanças em uma camada gerem impactos em cascata por todos os canais e operações. Erros de timeout nas chamadas entre instituições, falhas no fluxo de refresh token e indisponibilidades intermitentes, problemas recorrentes no ecossistema, frequentemente têm raiz nessa limitação estrutural.

Entre o legado e o futuro

A modernização não é apenas uma questão de orçamento, embora este seja relevante. Há também uma escassez de profissionais com domínio de arquitetura regulatória e padrões de segurança como OpenID e FAPI, agravada pelos prazos rígidos estabelecidos pelo Banco Central. Mesmo equipes de engenharia experientes enfrentam dificuldades para acompanhar essa curva de complexidade.

O desafio é ainda mais sensível para cooperativas de crédito e instituições de médio porte, que operam com orçamentos mais restritos e sistemas não projetados para integração com APIs modernas, o que eleva tempo, custo e risco de implementação.

Diante da inviabilidade de substituir integralmente os core bancários no curto prazo, o mercado tem adotado uma abordagem pragmática: criar camadas de abstração entre o legado e o Open Finance. Microsserviços, versionamento de APIs e plataformas de integração permitem desacoplar a lógica de negócio, tratar filas, monitorar fluxos e reduzir latência, viabilizando a convivência entre sistemas antigos e componentes modernos.

Essas soluções funcionam como pontes. São eficazes, porém imperfeitas. Ao mesmo tempo em que permitem a evolução do ecossistema, adicionam complexidade e custo operacional, sem eliminar totalmente o risco de falhas quando o volume de transações pressiona a capacidade da infraestrutura subjacente.

O Open Finance brasileiro é um sucesso em escala global e conta com um arcabouço regulatório maduro. Mas a sustentabilidade dessa liderança dependerá da capacidade de enfrentar seus gargalos estruturais. Baixa fluidez em jornadas críticas, adesão ainda limitada de empresas e, sobretudo, a tensão entre inovação regulatória e sistemas legados não se resolvem apenas com mais regras ou mais prazo.

Exigem investimento em infraestrutura, modernização tecnológica e formação especializada. Porque, no fim, o Open Finance vencedor não será o que acumular mais consentimentos, mas o que transformar dados compartilhados em valor percebido, com confiabilidade e fluidez, superando o paradoxo de ser inovador na superfície e dependente do legado na base.

*Por Carlos Sangiorgio, Vice-presidente Executivo de Tecnologia e Operações da Evertec Brasil.

Tags: EvertecOpen FinanceSistemas legados
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