Um Pix de R$ 0,01 não dá ao remetente acesso à conta bancária do destinatário, mas pode ser utilizado como parte da preparação para um golpe de engenharia social. O alerta é de Daniel Porta, CISO da DANRESA e especialista em cibersegurança, que explica os riscos por trás do chamado “golpe do Pix de R$ 0,01”, mensagem que voltou a circular nas redes sociais e aplicativos de mensagens.
“Receber um Pix de R$ 0,01 não dá ao remetente acesso à sua conta bancária”, resume.
Segundo o especialista, a narrativa que atribui à microtransferência a capacidade de invadir contas mistura um risco real com uma conclusão tecnicamente equivocada. O problema está no uso da transação para estabelecer um contato aparentemente legítimo com a vítima.
Como o golpe usa uma transação real
O funcionamento do DICT (Diretório de Identificadores de Contas Transacionais), infraestrutura do Banco Central, permite relacionar chaves Pix às respectivas contas. De acordo com o manual operacional do órgão, a consulta a uma chave apresenta dados básicos, como nome, instituição e agência, permitindo que o pagador confirme o destinatário antes de concluir a operação.
O criminoso, portanto, não precisa enviar um centavo para obter essas informações. Basta consultar a chave no aplicativo. A microtransferência pode ter outra finalidade: criar no extrato da vítima um lançamento verdadeiro, que posteriormente será utilizado pelo golpista para dar credibilidade ao contato.
A transação também pode ser utilizada para testar contas ativas ou identificar chaves válidas em listas obtidas anteriormente. Nesse cenário, o Pix não representa uma invasão, mas uma etapa de preparação para um pretexto utilizado posteriormente.
Engenharia social é o principal risco
Com informações básicas sobre a vítima, criminosos podem cruzar dados obtidos de diferentes fontes, como redes sociais e vazamentos anteriores. A combinação permite construir abordagens mais convincentes.
O Mapa da Fraude 2026, da Serasa Experian, registrou quase 1,5 milhão de tentativas de fraude em validações de identidade no Brasil no primeiro trimestre do ano. O setor financeiro concentrou seis em cada dez ocorrências.
Quando o golpista menciona o banco correto e uma transação que realmente aparece no extrato, a abordagem pode parecer legítima para a vítima. O objetivo, nesse caso, não é invadir diretamente a conta, mas convencê-la a fornecer informações ou realizar uma ação que permita o desvio dos recursos.
Como agir ao receber um Pix desconhecido
A orientação apresentada no texto é verificar o recebimento diretamente pelo aplicativo oficial do banco. Caso seja necessário devolver o valor, o procedimento deve ser realizado exclusivamente pela ferramenta nativa de devolução da instituição financeira.
A solicitação para que a vítima envie o dinheiro para outra chave Pix pode indicar uma tentativa de desvio dos recursos. Por isso, a recomendação é não realizar uma nova transferência por orientação de terceiros.
O que fazer em caso de golpe
Caso a fraude seja concretizada, a rapidez na contestação é importante. O texto destaca o MED 2.0, Mecanismo Especial de Devolução, que permite realizar a contestação pelo autoatendimento do aplicativo e prevê o bloqueio cautelar dos valores por até 11 dias para rastreamento de contas intermediárias.
O prazo para acionar o MED permanece em até 80 dias. A orientação também inclui registrar boletim de ocorrência e monitorar o CPF pelo Registrato do Banco Central.
“O principal objetivo de muitos golpes financeiros modernos não é quebrar a tecnologia, mas fazer com que nós mesmos confiemos na pessoa errada”, conclui Porta.





