O primeiro pensamento de quem busca a inteligência artificial como solução para sua empresa é sua aplicação em atendimento ao cliente, com chatbots, assistentes virtuais e sistemas capazes de responder perguntas em segundos. Essa foi uma porta de entrada importante, mas acredito que estamos começando a enxergar uma transformação muito mais profunda, e menos visível.
Finanças, contabilidade, compras, controladoria, compliance e operações concentram processos repetitivos, estruturados e baseados em grandes volumes de informação. São áreas em que uma tecnologia capaz não apenas de analisar dados, mas de executar tarefas dentro dos sistemas corporativos, pode produzir um impacto muito maior do que simplesmente responder perguntas.
Em maio de 2026, a Anthropic lançou agentes prontos para tarefas de serviços financeiros que incluem análise de documentos de KYC e fechamento contábil mensal. A própria empresa apresenta esses agentes como ferramentas capazes de executar trabalhos financeiros reais, e não apenas conversar sobre eles.
A OpenAI também vem avançando nessa direção. Sua plataforma Frontier foi apresentada como uma infraestrutura empresarial para agentes integrados aos sistemas corporativos e capazes de automatizar fluxos de trabalho. Em maio, a empresa anunciou ainda uma parceria com a PwC para aplicar agentes de IA em processos financeiros, incluindo automação de workflows, previsão e fortalecimento de controles. Isso representa uma mudança de paradigma.
A primeira geração de IA empresarial nos ajudou a produzir informação. A próxima começa a nos ajudar a executar processos. Imagine, por exemplo, um agente que receba documentos fiscais, identifique inconsistências, faça conciliações, consulte políticas internas, prepare lançamentos e encaminhe exceções para aprovação humana.
O ganho não está apenas em economizar o tempo de um profissional, mas será possível redesenhar o próprio fluxo de trabalho. Na contabilidade, isso é particularmente relevante. Grande parte do trabalho ainda envolve transformar documentos e dados dispersos em informação confiável para tomada de decisão. Se a IA conseguir executar etapas desse processo com rastreabilidade e controles adequados, o papel do profissional tende a migrar cada vez mais da execução operacional para análise, julgamento e supervisão.
Essa discussão já chegou ao setor financeiro. Em agosto de 2026, um estudo acadêmico sobre agentes financeiros propôs separar a capacidade de um sistema de fazer uma recomendação da autoridade para efetivamente executar uma transação. A ideia é que o agente pode analisar e propor, mas a autorização para movimentar recursos precisa estar submetida a controles independentes, limites e rastreabilidade. Outro estudo recente, também de agosto, avaliou agentes financeiros capazes de evoluir com a própria experiência e descobriu que ganhos de capacidade podem vir acompanhados de aumento da exposição a ataques e de alterações financeiras não autorizadas. Para a contabilidade, essa discussão é central.
Um erro em uma resposta de chatbot pode ser inconveniente. Um erro cometido por um agente com acesso a um ERP, contas a pagar ou processos fiscais pode gerar consequência financeira, contábil e regulatória. A discussão sobre IA não deveria ser tratada apenas como uma agenda de tecnologia. É também uma agenda de governança, controles internos, segregação de funções, auditoria e responsabilidade.
Se os agentes começarem a executar processos financeiros, será necessário estabelecer identidade, permissões, trilhas de auditoria, limites de transação, mecanismos de aprovação e planos para interrupção ou recuperação quando algo der errado. A IA não será apenas mais uma ferramenta utilizada pelo departamento financeiro. Ela poderá se tornar uma camada operacional entre pessoas, dados e sistemas.
O profissional que apenas executa uma conciliação pode perder espaço para a automação. Mas o profissional capaz de desenhar o processo, definir controles, interpretar exceções, avaliar riscos e validar o resultado da máquina pode se tornar ainda mais importante.
Portanto, finalizo destacando que a revolução, portanto, talvez não esteja no chatbot que conversa com o cliente. Ela pode estar no agente silencioso que, durante a madrugada, concilia contas, identifica uma inconsistência, bloqueia uma operação fora da política e deixa para o contador, pela manhã, apenas aquilo que realmente exige julgamento humano.
*Por Amanda Carvalho, fundadora e CEO da Adaflow.





