Os avanços da Inteligência Artificial tornaram a criação de vídeos, áudios e imagens falsos cada vez mais sofisticada e acessível, ampliando os riscos de fraudes digitais. Conhecidos como deepfakes, esses conteúdos podem reproduzir com realismo a aparência e a voz de pessoas comuns, sendo utilizados em golpes financeiros, tentativas de roubo de informações e falsificação de identidade.
Segundo o Identity Fraud Report 2025–2026, da Sumsub, as fraudes consideradas sofisticadas cresceram 180% globalmente em 2025, na comparação com o ano anterior. Só no Brasil, o relatório identificou um aumento de 126% nos casos de deepfakes e identidades sintéticas nos dados analisados pela empresa. O avanço mostra como a manipulação de identidade se tornou uma preocupação crescente para os mecanismos de prevenção a fraudes.
Diante desse cenário, os deepfakes representam grandes riscos para pessoas e empresas. O principal deles é a perda de confiança. Durante muitos anos, uma foto, um vídeo ou uma ligação eram considerados evidências relativamente confiáveis. Hoje, a IA permite criar conteúdos extremamente convincentes em poucos minutos.
A mudança mais significativa é que os criminosos passaram a combinar deepfakes com técnicas de engenharia social. O objetivo não é apenas enganar a tecnologia, mas manipular pessoas para obter acesso, informações sensíveis, aprovações financeiras ou vantagens indevidas.
De acordo com o Global Cybersecurity Outlook 2025, do Fórum Econômico Mundial, 47% das organizações consultadas apontaram os avanços dos criminosos impulsionados pela IA generativa como uma de suas principais preocupações em cibersegurança. O dado reforça que o problema vai além da falsificação de imagens e vídeos: envolve a capacidade de tornar ataques de engenharia social mais convincentes e escaláveis.
De olho na fala e nos movimentos
Alguns sinais podem evidenciar se um vídeo, áudio ou imagem foi manipulado por IA. Entre os mais comuns estão inconsistências na fala, movimentos artificiais ou comportamentos que não parecem naturais. Mas esses indícios não são conclusivos. Com a evolução da tecnologia, as falsificações podem apresentar cada vez menos imperfeições perceptíveis, tornando arriscado depender apenas da observação humana para identificar uma fraude.
Hoje, confiar apenas na percepção visual ou auditiva já não é suficiente. Isso vale especialmente quando conteúdos utilizam a imagem ou a voz de executivos, celebridades, influenciadores ou outras figuras públicas para transmitir falsa credibilidade e induzir decisões equivocadas ou até mesmo fraudes.
Mais importante do que analisar a imagem em si é validar o contexto da informação. Sempre que houver uma solicitação sensível, financeira ou fora do padrão, vale confirmar a autenticidade por outro canal.
Como se proteger
Atualmente, os golpes envolvendo deepfakes que mais merecem atenção são os que envolvem a simulação de executivos, familiares ou profissionais de confiança para solicitar transferências financeiras, compartilhamento de informações ou aprovação de atividades urgentes. Paralelamente, vemos o uso crescente de vídeos e áudios falsos em tentativas de fraude corporativa. O problema não está apenas na qualidade da falsificação, mas na velocidade com que as pessoas tomam decisões quando acreditam estar falando com alguém conhecido.
Para se proteger, as empresas devem estabelecer processos claros para aprovações financeiras, compartilhamento de informações sensíveis e solicitações fora do padrão. A conscientização continua sendo fundamental, mas algumas práticas simples também podem ajudar muito, como, por exemplo, utilizar frases, palavras-chave ou perguntas de validação para confirmar a identidade de quem está fazendo uma solicitação.
Esses mecanismos devem ser combinados com procedimentos independentes de confirmação, como contatar a pessoa por um número ou canal previamente conhecido, sem utilizar os contatos fornecidos na própria mensagem suspeita. No cenário atual, segurança passa cada vez mais por validação, conferência e confirmação, especialmente quando existe pressão, urgência ou envolvimento financeiro.
Com a tecnologia evoluindo rapidamente, o maior erro continua sendo acreditar que segurança é apenas uma questão tecnológica. É preciso fortalecer uma cultura baseada em verificação, senso crítico e validação de informações. As organizações mais preparadas não são necessariamente as que possuem mais ferramentas, mas aquelas que conseguem ter visibilidade sobre seus riscos, identificar comportamentos suspeitos e criar mecanismos de decisão mais seguros.
Por isso, acredito que conceitos como visibilidade, observabilidade e governança se tornam cada vez mais importantes. É preciso ter visibilidade para entender quais riscos existem, observabilidade para identificar comportamentos e situações fora do padrão, e governança para garantir que decisões críticas sejam validadas de forma adequada.
Essa preparação exige atenção especial à adoção de novas tecnologias. O Fórum Econômico Mundial identificou que, embora 66% das organizações esperassem que a IA tivesse impacto significativo na cibersegurança, apenas 37% declaravam possuir processos para avaliar a segurança das ferramentas de IA antes de sua implementação. A diferença evidencia a importância de incorporar critérios de segurança desde a adoção dessas soluções, em vez de agir somente depois de um incidente.
No fim, os deepfakes representam uma evolução das técnicas de fraude, mas a proteção continua baseada em um princípio bastante simples: confiar menos na aparência da informação e investir mais na sua validação.
*Por Daniel Tieppo, Diretor Executivo e cofundador da Hexa Security.




