Quando pensamos no El Niño, já o associamos a um fenômeno climático, mas seus efeitos vão além da temperatura e da quantidade de chuva. No ambiente empresarial, momentos de pressão climática intensa podem resultar em maior consumo de energia, mudanças no fornecimento de água, sobrecarga nos sistemas prediais e uma exposição maior a falhas de infraestrutura. Então, a preparação para essas situações deve ser integrada à gestão da operação.
O Painel El Niño 2026-2027, que inclui o INPE, o INMET, a ANA, o CEMADEN, o SGB e a Defesa Civil, confirmou a configuração do fenômeno e indicou uma alta probabilidade de que ele continue pelo menos até o início de 2027, além de apontar a possibilidade de um evento muito forte entre a primavera e o verão. Embora esses dados não possibilitam prever quais empresas podem enfrentar dificuldades ou quais instalações podem ser impactadas, eles sublinham a importância de avaliar a capacidade da infraestrutura em lidar com condições mais rigorosas.
Para quem administra uma operação crítica, contar com a falha de um equipamento antes de agir é uma abordagem que pode custar caro. Uma bomba trabalhando além de sua condição ideal, um sistema de climatização que não opera em sua máxima eficiência ou um sensor que fornece leituras imprecisas podem continuar a funcionar por um tempo sem causar interrupções. É nesse aspecto de normalidade que reside o perigo, pois uma alteração nas condições externas pode fazer com que uma pequena anomalia se torne um problema significativo.
Manutenção preventiva precisa antecipar problemas
Para muitas organizações, a manutenção preventiva ainda se resume a checagens periódicas e trocas de peças seguindo um cronograma. Essas atividades ainda são relevantes, mas a infraestrutura atual possibilita ir mais longe. A monitoração constante dos equipamentos e de seus indicadores operacionais permite detectar mudanças de comportamento, possibilitando que a manutenção seja focada no que realmente necessita de atenção.
Este aspecto é especialmente crucial em operações que dependem de sistemas que não podem ser interrompidos. Embora hospitais, Data Centers, shoppings, edifícios de escritórios e fábricas variem em seus níveis de criticidade, todos compartilham uma característica: uma falha na infraestrutura pode causar consequências que superam em muito o custo da reparação.
A prevenção não tem como propósito erradicar por completo a chance de uma ocorrência. É diminuir a chance de dificuldades inesperadas e melhorar a reação quando elas ocorrem.
Automação transforma dados em informação para decisão
A automação é um fator importante, pois possibilita o monitoramento contínuo de variáveis que seriam difíceis de detectar apenas com inspeções manuais. É possível monitorar e comparar a temperatura, o consumo de água e de energia, o funcionamento de aparelhos e outras condições operacionais com padrões estabelecidos anteriormente.
Uma mudança duradoura no consumo de energia pode ser um sinal de que um sistema de climatização não está mais operando com eficiência. Um aumento inesperado no uso de água pode ser um sinal de um vazamento. Assim como mudanças no comportamento de um equipamento podem sinalizar desgaste antes de uma falha,
No entanto, para que esse monitoramento seja eficaz, é fundamental não negligenciar a qualidade dos dados. Os sensores precisam ser calibrados, os sistemas devem ser configurados corretamente e os parâmetros operacionais precisam ser revisados regularmente. De nada serve automatizar uma infraestrutura se os dados que estão sendo utilizados para tomar decisões não refletem com precisão o que está acontecendo no ambiente.
Água e energia fazem parte da continuidade operacional
Não podemos esquecer que, em meio à pressão climática, é preciso também garantir os recursos essenciais para que as empresas operem. Água e energia não se resumem a consumo ou a indicadores de sustentabilidade. Em várias operações, sua disponibilidade é crucial para garantir que as atividades permaneçam em funcionamento.
Por exemplo, uma maior demanda por climatização pode aumentar o consumo de energia e sobrecarregar os equipamentos. Mudanças no fornecimento de água podem sobrecarregar sistemas que já estão operando em sua capacidade máxima. Quando não há um acompanhamento adequado, desperdícios e ineficiências podem ficar escondidos até que a demanda cresça.
Identificar esses pontos antes de um período crítico possibilita resolver problemas, otimizar configurações e fazer um uso mais eficiente dos recursos. Mais que diminuir despesas, é sobre construir uma infraestrutura que responda melhor às mudanças sem afetar a operação.
Preparação não começa quando o problema acontece
Não se pode regular a força de um evento climático nem antecipar com precisão como seus impactos irão afetar cada área. No entanto, é viável ter conhecimento das condições da própria infraestrutura e minimizar as vulnerabilidades que estão sob a gestão da empresa.
A avaliação abrange equipamentos essenciais, climatização, sensores, uso de água e energia, drenagem e sistemas de monitoramento. Isso também implica saber quais ativos são mais arriscados, quais sinais de anomalia estão disponíveis e quanto tempo a operação levaria para responder a uma falha potencial.
Ao unir monitoramento, automação e manutenção preventiva, é possível detectar desperdícios, monitorar anomalias e tomar medidas antes que uma situação negativa resulte em uma interrupção. A vantagem não se limita à economia com custos de manutenção, mas sim à capacidade de antecipar decisões e agir antes que uma vulnerabilidade se torne um problema.
O El Niño intensifica um debate que as empresas deveriam ter, independentemente do clima: quanto mais uma operação depende de infraestrutura, mais deve saber sobre as condições em que essa infraestrutura opera.
O momento ideal para identificar uma fragilidade não é durante a tempestade, quando o consumo aumenta ou quando um equipamento falha. É nesse momento que ainda há tempo para resolver a questão e garantir que a operação continue a funcionar.
*Por Luis Ricardo Chiovatto, COO na Viridi Technologies.




