Implementar ou modernizar um sistema de gestão em ERP costumava significar grandes aportes financeiros imediatos. Durante muitos anos, essa foi uma realidade praticamente inalterada no ambiente corporativo: imobilizar capital para adquirir licenças perpétuas de software, construir data centers próprios e investir em infraestrutura robusta de servidores. Um modelo tradicional, baseado em despesas de capital (CAPEX – Capital Expenditure), que transformava a tecnologia em ativos de longo prazo, sujeitos à depreciação ou amortização, exigindo elevados investimentos iniciais e assumindo riscos ligados à obsolescência tecnológica e ao retorno de longo prazo.
Avançamos alguns anos no tempo. A economia, mais volátil do que nunca, os juros em patamares elevados, e os negócios, precisando acelerar drasticamente. Somado a isso, vivemos um momento em que a tecnologia deixou de ser apenas um suporte operacional para se tornar um vetor estratégico de crescimento e eficiência: plataformas cada vez mais robustas, evoluções constantes e avanços quase diários em Inteligência Artificial, que exigem uma capacidade de atualização que o modelo antigo simplesmente não consegue acompanhar.
Nesse novo cenário, o Diretor Financeiro (CFO) passou a enxergar a TI não apenas como um centro de custos, mas como uma alavanca de eficiência, crescimento e transformação dos negócios. Nesse contexto, ganha relevância um modelo baseado em demanda, sustentado por soluções SaaS (Software as a Service) e mais aderente à lógica das despesas operacionais (OPEX – Operational Expenditure). Trata-se de uma alternativa que proporciona maior previsibilidade financeira, reduz a necessidade de investimentos iniciais elevados, acelera a adoção de novas tecnologias e preserva a flexibilidade de caixa das empresas.
Uma metáfora visual ajuda a ilustrar a diferença: em vez do mar inteiro, ondas, com diferentes picos ao longo do tempo. Ou seja: uma migração para a nuvem que substitui um desembolso inicial milionário por uma estrutura de pagamentos recorrentes, ajustada ao consumo ou ao número de usuários ativos. Na prática, significa que o investimento em tecnologia deixa de concorrer com o capital de giro que a empresa precisa para expandir fábricas, adquirir insumos ou investir em sua atividade fim.
Existem três fatores que ajudam a explicar a priorização cada vez maior dos decisores por essa transição. Em primeiro lugar, escalabilidade e flexibilidade: são elas que permitem que setores mais sujeitos à sazonalidade, como o agro nos seus picos de safra, por exemplo, expandam a infraestrutura rapidamente e a reduzam nos períodos de menor demanda, sem o risco de equipamentos ociosos.
Em seguida, algo que podemos pensar como uma democratização da inovação, uma vez que upgrades outrora custosos do modelo “tradicional” dão lugar à incorporação contínua de IA, automação e análise avançada de dados diretamente na nuvem. Por fim, uma abordagem sob demanda reduz o time-to-value e mitiga riscos, o que encurta os prazos de implementação e evita “velhos conhecidos” de TI: projetos que estouram o orçamento antes de darem sinais de impacto real.
Naturalmente, uma mudança substancial como essa exige maturidade de governança, planejamento tributário adequado e a escolha de parceiros de tecnologia capazes de desenhar arquiteturas seguras e integradas. Não se trata apenas de mudar a forma de contabilizar o software, mas de transformar a tecnologia em uma alavanca operacional ágil.
A questão já não é apenas quanto custa um sistema, mas qual valor ele entrega ao longo do tempo. CFOs e CIOs buscam soluções capazes de acompanhar a evolução dos negócios, absorver novas demandas com rapidez e sustentar estratégias de crescimento sem exigir reinvestimentos constantes. Nesse contexto, uma infraestrutura tecnológica flexível deixa de ser apenas um recurso operacional para se tornar uma vantagem competitiva relevante.
*Por Sauro Cruz, Finance & Controlling Director na NTT DATA.





