Durante décadas, a área de TI ocupou um lugar quase intocável dentro das empresas. Era o departamento que concentrava o conhecimento técnico distante dos demais times e, por isso, definia o que era possível fazer, quanto custaria e quanto tempo levaria.
A inteligência artificial está mudando essa relação. Hoje, profissionais de marketing, jurídico, finanças e negócios conseguem criar aplicações, automações, dashboards e workflows com ferramentas que antes exigiam conhecimento especializado. Executivos aprendem conceitos como banco de dados, APIs, integrações e desenvolvimento. A tecnologia deixou de ser um território exclusivo de TI.
Isso não significa que qualquer pessoa possa substituir uma equipe especializada. Segurança, arquitetura, governança e sustentação continuam exigindo conhecimento técnico. A mudança está em outro lugar. O negócio agora consegue entender e questionar melhor aquilo que antes aceitava sem ter repertório para discutir.
É aí que surge o principal desafio para TI. Enquanto as outras áreas ficam mais técnicas, a tecnologia precisa ficar mais próxima do negócio. O profissional que conhece apenas código pode perder espaço para aquele que entende código, operação, estratégia e resultado.
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Em 2022, o Gartner projetava que, em 2026, pelo menos 80% dos usuários de ferramentas low-code estariam fora dos departamentos formais de TI. A previsão ocorreu antes da popularização das ferramentas de inteligência artificial, que ampliaram ainda mais o acesso ao desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, quanto mais fácil fica para criar soluções, maior é a necessidade de ter quem saiba garantir que elas sejam seguras, integradas e sustentáveis. Uma aplicação desenvolvida pelo marketing ou pelo financeiro pode nascer fora da fila tradicional de TI, mas vai precisar de tecnologia para funcionar bem.
O futuro da área, portanto, não está em proteger fronteiras, mas em ampliá-las. O desenvolvedor precisa entender o negócio, questionar processos, identificar oportunidades e participar das decisões. TI precisa deixar de ser apenas a área que executa demandas e assumir um papel cada vez mais estratégico.
A inteligência artificial não está tornando a tecnologia menos importante. Está possibilitando que o conhecimento técnico seja mais acessível. E, quando o conhecimento deixa de ser exclusivo, a relevância passa a depender menos do que uma área sabe fazer e mais do impacto que consegue gerar.
O risco não é a TI desaparecer. É ela continuar trabalhando como se o mundo ao redor ainda não tivesse mudado.
*Por Th[IA]go Otto, CEO & Founder at OTTO-OTTO AI Consulting e membro do Conselho de IA da ABIACOM.





